lugar seguro

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Arte:  Courtney .

Arte: Courtney.

Semana passada não foi fácil. E eu não falei sobre nada aqui ou qualquer outro lugar. Muitas coisas estão acontecendo na minha vida – uma espécie de transição? – e não tem quase nenhum registro no blog sobre isso. E sabe por quê? Os blogs não são mais lugares seguros.

Eu lembro quando tinha 11 anos e usava um nickname, Kimi (não me perguntem por quê), e falava sobre como foi meu dia na escola, como era morar com o meu pai, como estava me sentindo naquele dia… E tudo sem filtros. Eu estava sendo eu mesma. Da mesma forma, lia histórias de meninas que tinham um cotidiano parecido com o meu, trocávamos comentários, guardávamos segredos – afinal, ninguém sabia quem era quem.

Isso faz um tempinho considerável. Se formos contar, lá se vão 14 anos. Chegar em casa e desabafar sobre qualquer coisa no meu diário virtual era, sem dúvida, uma das melhores partes do meu dia. Não me importava com erros de digitação, com coerência. Só queria poder ter a chance de conversar com alguém sobre o momento, por mais bobo que fosse. Nessa época, tudo parece tão assustador para uma pré-adolescente.

Não sou de fazer discursos do tipo na-minha-época, até porque para quem ouve, é bem chato. Mas a verdade é que os blogs cresceram, mudaram de rumo e ganharam mais visibilidade. E deixaram de ser lugares seguros. Hoje, tudo o que dizemos pode ser usado contra nós. É a patrulha do “se você é uma pessoa pública, tem que aceitar isso”. Ignorar completamente os sentimentos de quem está do outro lado da tela é o certo, então?

Não existe uma Gabriela online e uma Gabriela offline. Tudo o que acontece comigo fora do blog acaba, de algum jeito, influenciando aqui. Seja com uma menor quantidade posts ou fotos sem graça. E hoje não conseguimos mais usar nossos blogs como diários, igual há 14 anos. Bem que eu queria poder desabafar e contar tudo o que está acontecendo (e me recordar sobre esse momento depois), mas preciso limitar essa conversa à minha terapeuta, já que é o único lugar que sei que ninguém vai me cobrar ou me julgar de alguma forma.

Além do mais, os blogs acabaram se tornando mais uma obrigação. A culpa é dessa vontade de sempre deixar todo mundo a par da situação, da ansiedade de mantê-lo na qualidade de sempre, do duro compromisso que nos impomos. E aí isso se junta ao fato de não ser mais um lugar seguro e o resultado são posts frustrados e nenhuma vontade de continuar.

De uns tempos para cá não tem sido nada fácil e, por mais que as fotos no Instagram sejam bonitas, elas só mostram uma parte da realidade. Aquela parte boa que você compartilha com todo mundo e sabe que não vai ser julgada, se machucar ainda mais ou comprometer outras pessoas. Acho que agora entendo porque algumas pessoas preferem deixar blogs e redes sociais trancadas para estranhos.

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