Para não apelar para os 50 Tons

Para não apelar para os 50 Tons

Algumas coisas a gente faz contragosto, só para ter argumentos. Não podia falar mal de Cinquenta Tons de Cinza sem ter lido. Bom, algumas pessoas fazem isso, mas, se eu quisesse mesmo ter provas, teria que ler. Se você gostou, tudo bem, mas lembre-se que aqui no blog estou dando apenas a minha opinião. Você pode concordar ou não, você está no seu direito - só não se esqueça de respeitar também aquilo que digo.

Li o livro, sim! Peguei emprestado, já que me recusei a pagar um centavo por ele. Eu sou daquelas que crê que cada pessoa interpreta o livro de acordo com o momento pelo qual está passando. Alguns livros caem como uma luva, explicam exatamente aquilo que sentimos, mas outros não se encaixam e acabamos achando toda aquela narrativa bem enrolada, desnecessária e cheia de mimimis. Eu li Crepúsculo, Lua Nova e Eclipse (não aguentei ler o quarto). No momento em que comecei a ler, soube que Stephenie Meyer não escrevia bem e tinha péssimas ideias (vamos lá, né, vampiro brilhar já é demais).

Na minha concepção, Cinquenta Tons de Cinza é muito chato. Vamos analisar. Uma garota distraída, introvertida, desastrada, por acaso, conhece um cara que é um deus grego e deixa todas as outras mulheres babando. Ele é lindo, charmoso, rico, poderoso... e, sem saber o porquê, ele se encontra perdidamente apaixonado pela menina que tem a auto-estima lá embaixo. Ele esconde um segredo, mas conta para ela porque quer que ela participe de sua vida, mas avisa que deveria se afastar, para o bem dela. A garota fica naquela dúvida eteeeeeeerna e chata se deve ficar com ele ou não e blablablá.

Para não apelar para os 50 Tons

O enredo soa familiar? O livro é simplesmente um Crepúsculo com cenas tórridas de sexo sadomasoquista (sádico pela parte dele e masoquista por parte dela). Acaba que tanto Edward Cullen quanto Christian Grey gostam de ser dominadores, mas viram cachorrinhos perto de suas musas. Além disso, nas duas histórias rola um triângulo amoroso. Conseguem entender o que eu digo? Eu parecia estar relendo Crepúsculo (e a Mari me lembrou bem: o livro SURGIU de uma fanfic de Crepúsculo! I rest my case...).

Creio que, talvez, uma vantagem que podemos ver desse livro é o fato de que muitas mulheres começaram a observar seus desejos na cama. Nesse ponto, o livro não me influenciou muito. Eu sei do que gosto e ponto - e, se quero experimentar coisas novas, não é pela influência da história, é pelo meu jeito curioso mesmo. Mas será que, para falar de sexo, precisamos ler uma obra tão mal escrita quanto essa?

O campo erótico sempre foi mais explorado pelos homens, mas isso não exclui a vontade feminina de consumir pornôs de vez em quando. O nosso gosto é um pouco diferente, preferimos enredos envolventes, com histórias, com diálogos excitantes. Talvez por isso Christian Grey é tão ovacionado pelas leitoras: ele tem atitude e é extremamente direto, mas ainda consegue-se inseri-lo em um contexto romântico. Diferentemente do que vemos nos pornôs escatológicos feitos para o público masculino.

Para não apelar para os 50 Tons

Mas quero contar uma coisa para vocês: ninguém precisa se prender a uma história infantilmente narrada para conhecer mais suas vontades sexuais. O cinema erótico/sensual de boa qualidade está aí para mostrar isso. Personagens complexos, apaixonantes, que nos envolvem. Para as mulheres que se interessarem, indico De Olhos Bem Fechados (do fantástico Kubrick), Beleza Americana, Closer, O Último Tango em Paris (com o deuso Marlon Brando) e os filmes de Tinto Brass, um diretor italiano conhecidíssimo no meio erótico (existem TANTOS outros filmes com essa temática que vale a pena pesquisar mais!).

Ainda na linha literária, se tem uma autora que recomendo de olhos bem fechados é Anaïs Nin. Seus contos são incríveis e excitantes, um primor da literatura erótica - e o melhor: escrito DE e PARA mulher. A linguagem é sensual e insinuante, nada exagerada e que incitam a imaginação. O mais legal é que, muitas de suas histórias escritas fazem parte da própria experiência de Nin. A autora foi amante de Henry Miller, conhecido principalmente pelo livro Trópico de Câncer, clássico erótico da década de 1930.

Então, se você quer Cinquenta Tons de Cinza, leia. Mas, por favor, não ache a melhor coisa do mundo. Conheça outras coisas, leia (e assista/veja) mais sobre o assunto e delicie-se. Afinal, é bom demais poder ter a liberdade de se excitar e imaginar, sem pudores nem medo de convenções sociais. Porque quem realmente vai descobrir o que é bom para você é só você mesma, e não um personagem fictício de um best-seller.