As várias Bonequinhas de Luxo

É difícil não encontrar alguma mulher que não tenha se identificado, mesmo que um pouco, com Bonequinha de Luxo. Holly Golightly é independente, maluquinha e faz aquilo que quer sem se importar com ninguém. Ao mesmo tempo que nos identificamos, queremos parecer ainda mais com ela. Seja no estilo, na classe ou na mania de dizer palavras em francês aleatoriamente em qualquer frase.

Há pouco tempo, finalmente, consegui ler o Bonequinha de Luxo, de Truman Capote. É uma novela de noventa e poucas páginas, facílima de ler por ser bastante agradável. Em muita coisa a Holly do livro se difere da Holly do filme. A Srta. Golightly das letras é uma garota interiorana que vai para a cidade grande para tentar melhorar suas condições de vida, tanto a financeira quanto a social.

Bonequinha de Luxo

A história é contada por um escritor que, em plena Segunda Guerra Mundial, muda para Nova York e para o mesmo prédio de Holly Golightly. Em pouco tempo eles se conhecem e viram grandes amigos. Mas, ao contrário do filme, a relação dos dois não passa disso. O jovem escritor vira um admirador e confidente da Bonequinha. A personalidade de Holly é forte, o que a torna uma garota inesquecível para todos que a cercam.

A acompanhante de luxo que teve uma passagem rápida por Hollywood é loira, com vários tons dourados no cabelo, míope, aventureira, bagunceira e que ganha presentes de excelente qualidade de alguns de seus clientes mais ricos. É esguia, feminina e cheia de classe, que adora dar festas e, de vez em quando, roubar coisas bobas de lojinhas em Nova York.

Por causa dessa sua personalidade cativante, ímpar, ingênua e sonhadora, acho que ela não poderia ter sido melhor interpretada do que pela incrível Audrey Hepburn. Em um outro livro que tive o prazer de ler - Quinta Avenida, 5 da Manhã, de Sam Wasson - fala da construção de todo o filme Bonequinha de Luxo, desde a escolha do roteirista, diretor, elenco... E é realmente verdade que Truman Capote tinha pedido que Holly fosse interpretada por Marilyn Monroe.

Bonequinha de Luxo

O livro é de 1958 e o filme, de 1961. Para aquela época, falar sobre prostitutas ainda era um assunto vetado na indústria cinematográfica por causa da censura. Por isso, muita coisa da novela não podia ser gravada, escrita no roteiro ou sequer mencionada na produção do filme. Mas, ainda assim, Bonequinha de Luxo conseguiu mudar os rumos da mulher no cinema desde então. E muito graças à Hepburn.

Depois de ter ganho um Oscar por A Princesa e o Plebeu, Audrey encarou o desafio de interpretar uma "mulher da vida" sem que isso comprometesse sua carreira profissional (ou pessoal). A Holly de Audrey é tal qual a do livro, mas com uma postura mais contida. Mesmo tendo que obedecer a censura americana, Hepburn consegue fazer uma protagonista independente, serelepe, sofisticada e sonhadora, contribuindo para uma nova visão da mulher nas telonas.

Bonequinha de Luxo

Vale lembrar que, até então, existiam apenas dois papeis a serem encenados por mulheres no cinema: aquela pura, casta, ingênua, que cora só ao ouvir falar de sexo.  E há aquela louca, nada santa, desvairada e sensualíssima, que exala sexo. Nessa última, podemos encaixar a icônica Marilyn Monroe.

O filme só conseguiu atingir o grau de clássico por causa da figura de Audrey Hepburn. Holly não é uma garota de programa, apenas. Ela é uma menina interiorana que deixou uma história para trás querendo começar uma vida nova, um sonho. Sua habilidade de tocar violão e dar toda a liberdade ao seu único bicho de estimação mostram que ela viveu muita coisa até chegar aqui. Ou seja, não é uma deslumbrada. Apesar de sonhadora, ela mantém os pés no chão, para imaginar só com o possível.

Bonequinha de Luxo

O jeito doce e a classe foram emprestadas por Audrey e completadas com um incrível figurino que incluía um tubinho preto de Givenchy. Peça essa que conseguiu atravessar décadas e décadas e permanecer um clássico. Criada por Chanel, mas imortalizada por Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo. Alguém duvida?